segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A epopeia de tentar ser saudável ou Como eu quase fiquei debaixo dum carro por não ter força nas pernas

Esta cena de ser saudável está na moda e, surpreendentemente, este facto já não é capaz de me fazer subir o nível de ódio até aos píncaros que anteriormente atingia.
A minha resposta à desconcertante pergunta que toda a gente aparenta querer fazer a todo o resto da gente, "Vais treinar?", costumava ser algo nas linhas de "Morre.". Mas já não me incomoda!
Pior, acho que estou a alinhar nisto de comer-feno-e-suar-por-opção. Se calhar é o meu lado campestre?
Mas bom, eu explico.
Quem me conhece sabe que sou uma moça pouco dada a actividade* física ou a qualquer actividade que requeira mais do que três movimentos seguidos. Aliás, na minha juventude, fiquei conhecida como a miúda com mais imaginação para inventar desculpas que permitissem ficar sentada a olhar durante a educação física. Além das mais banais como "dói-me a barriga" e "sou asmática", há duas ocasiões que me ficaram para sempre gravadas no coração com aquela marca que apenas os momentos bonitos sabem deixar:

1) A vez em que andava no Colégio e tinha um professor de Ed Física que era o epítome do grunho e com o qual resolvi ser subtil ao dizer que estava com o período - que, como toda a gente sabe, é maleita que impede uma gaja de fazer seja o que for...que não lhe apeteça.
Eu: Professor... não posso fazer aula. Estou a ter uma...bem...uma semana difícil.
Prof: Han?! De que é que estás a falar?! É segunda-feira!
Eu: Pois Professor, mas eu estou naqueles dias do mês... - (neste ponto já a minha cara começava a ganhar aquele saudável tom de vermelho que, já agora, é mais uma razão para eu odiar mexer-me.)
Prof: Que dias do mês?! Mas agora há dias do mês p'ra fazer ginástica? És fina!
Eu (Em desespero de causa e já a passar do vermelho ao azul): Oh Professor, é que o Benfica joga em casa!
Prof: Que tenho eu a ver com isso?! Sou do Sporting! Tá a andar!

Pausa para dizer que não me esquecerei nunca das suas trombas , Professor P.F. nem do seu nome e um dia vingar-me-ei de si with fire and blood. Adiante.

2) O segundo momento memorável foi quando queimei o antebraço esquerdo todo ao ir contra a minha tia avó que transportava uma cafeteira de água fervente. Doeu um bocado, mas valeu a pena pelo que se passou a seguir. Foi glorioso: eu, de braço todo ligado, colegas à volta a demonstrar apoio, a entrar pelo Pavilhão adentro e dizer "Professor, o médico disse que não posso fazer Ginástica." - ahhh, a satisfação! A magia!

Portanto, e para resumir, o trauma de aturar o Prof. PF acompanha-me desde os tempos da Primária até aos dias de hoje . Graças a este homem detestável, passei o Ciclo a inventar desculpas e o Secundário a ir para o café comer bolos em vez de ir às aulas de Ed. Física. Já nos primeiros anos de faculdade, fui feliz e livre enquanto enchia o bandulho de crepes com chocolate e cerveja aos potes, actividades estas que me transformaram numa versão modernizada das meninas que Rubens pintava ou daqueles esculturas da deusa da fertilidade que os nossos antepassados esculpiam e que surgem nos livros de História no 5º ano, fazendo os rapazes pré-púberes desatar à cotovelada porque "elas têm as mamas à mostra".

Só que eventualmente uma pessoa começa a ganhar juízo e a olhar ao espelho com maior atenção. Não que o escrutínio da minha imagem ao espelho não tenha feito desde sempre parte do dia-a-dia, acompanhado duma ladainha de "ai que nojo estou tão gorda".Facto é que com a idade vem uma nova modalidade de auto-observação. "Podia melhorar isto, diminuir aquilo... isto pode ficar, do mal o menos", e por aí fora. Uma atitude mais pro-activa, se quisermos.
Tentei inscrever-me num ginásio chique e odiei tudo nele, desde o cheiro ao ar de casa de banho gigante às pessoas esquisitas que lá andavam. Vamos lá falar a sério, quem é que vai p'ra passadeira em mini short e tirinha de borracha a tapar o peito (aquilo nem chega a ganhar estatuto de top), longos cabelos soltos e toda maquilhada? A sério?!
Tentei o yoga, que adorei, mas a senhora que dava aula era arraçada de Dementor e estava apostada em sugar-me a alma. Desisti do yoga e nunca mais voltei, resistindo à vontade de mandar a auto-preservação à viola e aturar a senhora numa de "gosto tanto da aula e assim como assim é só uma SMS por dia.".
Já quis correr mas falemos com honestidade: eu, a sair de casa sozinha depois do trabalho para ir correr? Correr para lado nenhum? Algum dia isso vai acontecer?
Em suma, agora inscrevi-me noutro ginásio e decidi tentar uma nova estratégia. Não vou a casa antes. Não vou às malfadadas máquinas. Vou fazer aulas e aguentar como uma linda menina a frustração de ter mais ou menos a forma física de uma enguia já em estado de caldeirada e de ser muito basicamente incapaz de executar qualquer tipo de sequência de movimentos coordenados. E vou duas vezes por semana.
Entre inscrever-me e efectivamente ir, passou-se uma semana. Hoje foi o primeiro dia.
Lá fui eu toda contente depois do trabalho, por ali fora, a ter comigo mesma uma animada conversa de incentivo, a tentar parecer confiante e ao mesmo tempo a preparar-me para tudo ser um absoluto desastre. Assim, de acordo com os meus próprios desígnios, tirei logo uma senha para uma aula - "Blast Total". É verdade que isto diz absolutamente zero sobre o conteúdo da aula mas no site dizia algo acerca de alongamentos e tal  e eu pensei "hmm, não pode ser muito diferente do yoga".

MEU DEUS COMO EU ESTAVA ENGANADA.

A parte boa é que durou 30 minutos e eu cheguei ao fim tendo feito (mal e porcamente) cerca de 95% dos exercícios.
A parte má é que quase toda a aula se compõe de saltos e saltinhos e houveram momentos em que acreditei que me ia ficar ali. Qual quê deixar de fumar torna tudo mais fácil? A minha capacidade para executar exercícios cardio é nula, meus amigos, e durante a maior parte do tempo acho que estive de boca escancarada a tentar sugar oxigénio e a falhar redondamente.
Quando cheguei ao fim parecia que tinha saído de uma batalha campal e sentia-me igualmente vitoriosa - parece que esta teoria de fazer as coisas até ao fim, por mais terríveis que sejam, até faz sentido. A instrutora, uma mulher baixinha, magrinha e super musculada que passou a aula a dizer "Vamos lá Inês!!" perguntou-me como me sentia e eu respondi "Estou viva!Vemo-nos para a semana". O ar incrédulo dela espantou-me... mas só até chegar ao balneário.
Estão a ver quando cortamos uma beterraba e as mãos ficam tão cheias de vermelho que só parece que acabamos de praticar um homicídio em primeiro grau com AS UNHAS??? Era dessa cor que estava a minha cara. Não! não só a cara, o pescoço também! Encolhi os ombros e dediquei-me à humilhante tarefa de tentar vestir umas calças justas num corpo encharcado de suor - para quem não sabe, tenho horror a casas de banho públicas sejam elas de que natureza forem e recuso-me portanto a tomar banho num balneário.
A prova fora superada! Senti-me capaz de fazer algo parecido várias vezes por semana! Parece que respirava melhor!
Dirigi-me numa passada confiante para a saída e estava tudo a correr pelo melhor - mesmo com a cara a  rebentar de calor e vermelhidão - quando me deparo com as escadas que é preciso descer para sair do ginásio.
Foi aí que as pernas falharam.
Os joelhos cederam.
Agarrei-me de forma incerta a um corrimão enquanto procurava olhar em frente e manter a dignidade.
Desisti da dignidade e agarrei-me com as duas mãos como se a minha vida dependesse - e dependia! - disso.
Endireitei-me e saí dali p'ra fora, mas as pernas continuaram a falhar e a dobrarem-se a seu bel-prazer.
Deve ter sido tão engraçado ver-me trotar avenida afora, rubra como o um tomate fluorescente, cheia de sacas e sacolas nos dois braços e a saltitar deficientemente.
TÃO ENGRAÇADO.


Segunda feira vou lá outra vez.


*Não, eu não aderi ao novo acordo ortográfico. Há modas e modas, meus amigos, e eu gosto de pôr letras que não se lêem - é o sórdido segredinho que partilho com as palavras.