Esta cena de ser saudável está na moda e, surpreendentemente, este facto já não é capaz de me fazer subir o nível de ódio até aos píncaros que anteriormente atingia.
A minha resposta à desconcertante pergunta que toda a gente aparenta querer fazer a todo o resto da gente, "Vais treinar?", costumava ser algo nas linhas de "Morre.". Mas já não me incomoda!
Pior, acho que estou a alinhar nisto de comer-feno-e-suar-por-opção. Se calhar é o meu lado campestre?
Mas bom, eu explico.
Quem me conhece sabe que sou uma moça pouco dada a actividade* física ou a qualquer actividade que requeira mais do que três movimentos seguidos. Aliás, na minha juventude, fiquei conhecida como a miúda com mais imaginação para inventar desculpas que permitissem ficar sentada a olhar durante a educação física. Além das mais banais como "dói-me a barriga" e "sou asmática", há duas ocasiões que me ficaram para sempre gravadas no coração com aquela marca que apenas os momentos bonitos sabem deixar:
1) A vez em que andava no Colégio e tinha um professor de Ed Física que era o epítome do grunho e com o qual resolvi ser subtil ao dizer que estava com o período - que, como toda a gente sabe, é maleita que impede uma gaja de fazer seja o que for...que não lhe apeteça.
Eu: Professor... não posso fazer aula. Estou a ter uma...bem...uma semana difícil.
Prof: Han?! De que é que estás a falar?! É segunda-feira!
Eu: Pois Professor, mas eu estou naqueles dias do mês... - (neste ponto já a minha cara começava a ganhar aquele saudável tom de vermelho que, já agora, é mais uma razão para eu odiar mexer-me.)
Prof: Que dias do mês?! Mas agora há dias do mês p'ra fazer ginástica? És fina!
Eu (Em desespero de causa e já a passar do vermelho ao azul): Oh Professor, é que o Benfica joga em casa!
Prof: Que tenho eu a ver com isso?! Sou do Sporting! Tá a andar!
Pausa para dizer que não me esquecerei nunca das suas trombas , Professor P.F. nem do seu nome e um dia vingar-me-ei de si with fire and blood. Adiante.
2) O segundo momento memorável foi quando queimei o antebraço esquerdo todo ao ir contra a minha tia avó que transportava uma cafeteira de água fervente. Doeu um bocado, mas valeu a pena pelo que se passou a seguir. Foi glorioso: eu, de braço todo ligado, colegas à volta a demonstrar apoio, a entrar pelo Pavilhão adentro e dizer "Professor, o médico disse que não posso fazer Ginástica." - ahhh, a satisfação! A magia!
Portanto, e para resumir, o trauma de aturar o Prof. PF acompanha-me desde os tempos da Primária até aos dias de hoje . Graças a este homem detestável, passei o Ciclo a inventar desculpas e o Secundário a ir para o café comer bolos em vez de ir às aulas de Ed. Física. Já nos primeiros anos de faculdade, fui feliz e livre enquanto enchia o bandulho de crepes com chocolate e cerveja aos potes, actividades estas que me transformaram numa versão modernizada das meninas que Rubens pintava ou daqueles esculturas da deusa da fertilidade que os nossos antepassados esculpiam e que surgem nos livros de História no 5º ano, fazendo os rapazes pré-púberes desatar à cotovelada porque "elas têm as mamas à mostra".
Só que eventualmente uma pessoa começa a ganhar juízo e a olhar ao espelho com maior atenção. Não que o escrutínio da minha imagem ao espelho não tenha feito desde sempre parte do dia-a-dia, acompanhado duma ladainha de "ai que nojo estou tão gorda".Facto é que com a idade vem uma nova modalidade de auto-observação. "Podia melhorar isto, diminuir aquilo... isto pode ficar, do mal o menos", e por aí fora. Uma atitude mais pro-activa, se quisermos.
Tentei inscrever-me num ginásio chique e odiei tudo nele, desde o cheiro ao ar de casa de banho gigante às pessoas esquisitas que lá andavam. Vamos lá falar a sério, quem é que vai p'ra passadeira em mini short e tirinha de borracha a tapar o peito (aquilo nem chega a ganhar estatuto de top), longos cabelos soltos e toda maquilhada? A sério?!
Tentei o yoga, que adorei, mas a senhora que dava aula era arraçada de Dementor e estava apostada em sugar-me a alma. Desisti do yoga e nunca mais voltei, resistindo à vontade de mandar a auto-preservação à viola e aturar a senhora numa de "gosto tanto da aula e assim como assim é só uma SMS por dia.".
Já quis correr mas falemos com honestidade: eu, a sair de casa sozinha depois do trabalho para ir correr? Correr para lado nenhum? Algum dia isso vai acontecer?
Em suma, agora inscrevi-me noutro ginásio e decidi tentar uma nova estratégia. Não vou a casa antes. Não vou às malfadadas máquinas. Vou fazer aulas e aguentar como uma linda menina a frustração de ter mais ou menos a forma física de uma enguia já em estado de caldeirada e de ser muito basicamente incapaz de executar qualquer tipo de sequência de movimentos coordenados. E vou duas vezes por semana.
Entre inscrever-me e efectivamente ir, passou-se uma semana. Hoje foi o primeiro dia.
Lá fui eu toda contente depois do trabalho, por ali fora, a ter comigo mesma uma animada conversa de incentivo, a tentar parecer confiante e ao mesmo tempo a preparar-me para tudo ser um absoluto desastre. Assim, de acordo com os meus próprios desígnios, tirei logo uma senha para uma aula - "Blast Total". É verdade que isto diz absolutamente zero sobre o conteúdo da aula mas no site dizia algo acerca de alongamentos e tal e eu pensei "hmm, não pode ser muito diferente do yoga".
MEU DEUS COMO EU ESTAVA ENGANADA.
A parte boa é que durou 30 minutos e eu cheguei ao fim tendo feito (mal e porcamente) cerca de 95% dos exercícios.
A parte má é que quase toda a aula se compõe de saltos e saltinhos e houveram momentos em que acreditei que me ia ficar ali. Qual quê deixar de fumar torna tudo mais fácil? A minha capacidade para executar exercícios cardio é nula, meus amigos, e durante a maior parte do tempo acho que estive de boca escancarada a tentar sugar oxigénio e a falhar redondamente.
Quando cheguei ao fim parecia que tinha saído de uma batalha campal e sentia-me igualmente vitoriosa - parece que esta teoria de fazer as coisas até ao fim, por mais terríveis que sejam, até faz sentido. A instrutora, uma mulher baixinha, magrinha e super musculada que passou a aula a dizer "Vamos lá Inês!!" perguntou-me como me sentia e eu respondi "Estou viva!Vemo-nos para a semana". O ar incrédulo dela espantou-me... mas só até chegar ao balneário.
Estão a ver quando cortamos uma beterraba e as mãos ficam tão cheias de vermelho que só parece que acabamos de praticar um homicídio em primeiro grau com AS UNHAS??? Era dessa cor que estava a minha cara. Não! não só a cara, o pescoço também! Encolhi os ombros e dediquei-me à humilhante tarefa de tentar vestir umas calças justas num corpo encharcado de suor - para quem não sabe, tenho horror a casas de banho públicas sejam elas de que natureza forem e recuso-me portanto a tomar banho num balneário.
A prova fora superada! Senti-me capaz de fazer algo parecido várias vezes por semana! Parece que respirava melhor!
Dirigi-me numa passada confiante para a saída e estava tudo a correr pelo melhor - mesmo com a cara a rebentar de calor e vermelhidão - quando me deparo com as escadas que é preciso descer para sair do ginásio.
Foi aí que as pernas falharam.
Os joelhos cederam.
Agarrei-me de forma incerta a um corrimão enquanto procurava olhar em frente e manter a dignidade.
Desisti da dignidade e agarrei-me com as duas mãos como se a minha vida dependesse - e dependia! - disso.
Endireitei-me e saí dali p'ra fora, mas as pernas continuaram a falhar e a dobrarem-se a seu bel-prazer.
Deve ter sido tão engraçado ver-me trotar avenida afora, rubra como o um tomate fluorescente, cheia de sacas e sacolas nos dois braços e a saltitar deficientemente.
TÃO ENGRAÇADO.
Segunda feira vou lá outra vez.
*Não, eu não aderi ao novo acordo ortográfico. Há modas e modas, meus amigos, e eu gosto de pôr letras que não se lêem - é o sórdido segredinho que partilho com as palavras.